O QUE ME DIZ A CARTA DO palocci

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A íntegra do Texto:

O QUE ME DIZ A CARTA DO palocci

Com que, então, Palocci, o Alheio, acorda de uma longa hibernação hipnótica. Depois de mais de uma década, tem a, ao que parece, iluminação.

Palocci, o Acusador, não é muito preciso em suas acusações. Não há detalhes e nem afirmações frontais, nada é imperativo. Há muitas lacunas, palavras e frases soltas, frases de efeito. Mas ele se vale disso para criar um jogo, no qual o alvo é Lula (percebam, não é o PT). Sutil, reticente, jogo de morde-e-sopra, xadrez. Mas o vilão é um só.

Palocci, o Domado, proclama que jamais esquecerá o dia (não precisou quando) em que Lula determinou encomendas de sondas e propinas. Não diz quais sondas, não diz quais propinas, não entra em detalhes, mas insinua que foi aí, naquele momento impreciso, que o PT teria sucumbido ao pior das práticas políticas. Não diz quais. Solta palavras e insinuações – corrupção, “tudo pode”, “terreno pantanoso” -, sem fazer acusações pontuais. Tudo no vago terreno do imaginário, do imaginário de quem lê ou que se deixa influenciar.

Palocci, o Demente, atribui à sua saída do governo, em 2006, o debacle do PT. Talvez Palocci, o Desmemoriado, esqueça que voltou ao governo em 2011. Viu, esqueceu, voltou, esqueceu, lembrou?

Palocci, o Ausente, lança palavras ao vento – enumera “presentes, sítios (quais?) e apartamentos” talvez recebidos por quem sabe Lula, mas sem dizer quando e nem como e nem porquê.

Mas Palocci, o Adestrado, vai mais longe na manipulação das emoções. Ele cutuca e fere no terreno dos sentimentos mais íntimos, talvez os mais piegas – os sentimentos e referências do afeto, da lealdade, do amor. Diz Palocci, o Copiador, em sua carta: “Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do homem mais honesto do país enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a Dona Marisa?”

D. Marisa, companheira de Lula por décadas, cujo nome nenhum deles jamais defendeu enquanto viva, virou recurso de marketing dos canalhas.

Li a íntegra da carta do Palocci em sua ensaiada saída do PT. Roteiro novelesco, com todos os ingredientes que vem sendo milimetricamente ofertados nos roteiros da Lava Jato e da Globo.

Nenhum desses ingredientes é mais cruel e mais farsesco (e, por isso, mais revelador) do que asquerosa e repetida acusação de que Lula usa o nome de d. Marisa para encobrir seus atos. Desde a morte de d. Marisa, esse é o recurso mais vil dos ataques a Lula.

Está lá, desde o interrogatório de Lula por moro, quando o juiz de primeira instância citou repetidamente e deliberadamente d. Marisa, induzindo o presidente a também falar sobre a esposa. Era o mote de que precisavam os canalhas para acusar Lula de jogar sobre a esposa as suas responsabilidades; a crônica de Ricardo Noblat foi a mais memorável dessas canalhices.

Pois é o que repete Palocci, em sua carta. E, ao fazer isso, Palocci, o Marionete, expõe toda a farsa do texto e do roteiro a que se presta.

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